• Susana de Sousa

"Hansel e Gretel" e a intervenção dos pássaros


« “Haveremos de encontrar o caminho.” Mas não o encontravam. Caminharam pela noite fora e todo o dia de manhã à noite, mas sempre sem conseguirem sair da floresta.»



Nunca tens a sensação de andar à deriva numa floresta escura? Sem conseguir encontrar o caminho de volta a casa?


E se não for suposto encontrares o caminho de regresso?


Talvez dentro da floresta te espere algo... talvez tenhas mesmo de te aventurar...


Gosto de mergulhar nas histórias para procurar pistas que nos possam ajudar, pois sei que as histórias vêem de um lugar cheio de sabedoria profunda.


Em "Hansel e Gretel" (ou "João e Maria", "João e Margarida" ou "A Casinha de Chocolate") dos irmãos Grimm, tudo começa quando a pobreza bate à porta. Uma família pobre não consegue resolver o desafio e a solução que surge é o abandono dos filhos.


“Amanhã bem cedinho levamos os nossos filhos para a parte mais densa da floresta: fazemos lá uma fogueira e damos um naco de pão a cada um deles, depois vamos cada um ao seu trabalho e deixamo-los sozinhos.”


Desta forma, a madrasta má determinou o destino das duas crianças: Hansel e Gretel.


As sábias crianças ouviram a sentença e precaveram-se, deixando pedrinhas a marcar o caminho quando o pai e a madrasta os abandonaram na floresta.


Seguindo o rasto das pedrinhas, os dois irmãos conseguiram voltar a percorrer os mesmos passos e regressaram a casa.


Mas, quando regressaram, o que tinha mudado?


Voltaram a encontrar a mesma pobreza, a mesma rejeição. Eles não tinham crescido. Não tinham ampliado os seus recursos. Continuavam a ser duas crianças indesejadas.


Da segunda vez que foram abandonados, deixaram um trilho de migalhas de pão. Dessa vez, não houve retorno a casa. Os passarinhos devoraram as migalhas.


A primeira intervenção dos pássaros obrigou as crianças a permanecerem na floresta.


A floresta é um local ávido de alimento. As próprias crianças estavam esfomeadas. Os seus recursos, aparentemente tinham findado.


Durante três manhãs, Hansel e Gretel vaguearam pela floresta.


Até que, “ao meio-dia, viram um bonito pássaro branco como a neve pousado num ramo entoando um canto tão belo que eles pararam para o ouvir. Quando terminou de cantar, abriu as asas e desatou a esvoaçar à frente deles. Seguiram-no até que chegaram a uma casinha, em que o pássaro pousou.”


A segunda intervenção dos pássaros conduziu as crianças à casa da bruxa.


É na casa aparentemente deliciosa e nutridora que as crianças encontram o maior perigo. A bruxa!


Esta bruxa quer fazer às crianças o mesmo que as crianças fazem à casa: comer.


Só que a inteligência dos dois irmãos é maior do que a da bruxa. Os seus recursos internos ativam-se no momento de perigo.


Hansel mostra à bruxa um ossinho, fingindo que é o seu dedo. Gretel empurra a bruxa para dentro do forno quando esta lhe pede para espreitar lá para dentro. As duas crianças salvam-se, usando as suas próprias artimanhas.


“E como já não tinham razões para medo, entraram na casa da bruxa e por todos os cantos havia caixas de pérolas e pedras preciosas.”


As crianças tinham encontrado o tesouro.


Durante o regresso a casa, deparam-se com o obstáculo final: um grande curso de água.


A terceira intervenção dos pássaros faz de ponte para a travessia.


Surge um pato branco ou cisne que carrega as crianças para a outra margem, fechando assim o ciclo de aventuras.


O que representam, então os pássaros?


Com a sua capacidade de voar e de ver “do alto”, os pássaros representam os nossos próprios recursos superiores. Por outras palavras, a nossa alma.


Daí a sua cor ser o branco, símbolo da pureza. Daí o segundo pássaro entoar “um canto tão belo”.


Se assumirmos que a partir do momento em que entram na floresta, as crianças estão num domínio regido pela sua própria alma, então quando saírem da floresta, o que irá acontecer?


A madrasta morre.


A casa de doces, a bruxa, e até mesmo o tesouro, não existem no plano material. Existem sim, num plano espiritual.


Quando as crianças conquistam mais Consciência (afinal, é disso que se trata em qualquer história) o plano material também se altera. Por isso a madrasta cruel desaparece!


Esta história fala do que acontece quando seguimos as indicações do nosso Eu Superior.


Assim, foi o Eu Superior, representado pelos pássaros, que conduziu as crianças para a floresta, para o desafio representado pela bruxa e para a saída vitoriosa.


Mas, como assim, o Eu Superior? Então os primeiros pássaros não são uns autênticos vilões, impedindo as crianças de regressar a casa?


Pois... se não fossem estes pássaros, as crianças não teriam ficado perdidas na floresta.


No entanto...


... se não estivessem perdidas, as crianças não teriam encontrado a casinha de doces.


... se não estivessem perdidas, as crianças não teriam matado a bruxa.


... se não estivessem perdidas, as crianças não teriam regressado a casa com um tesouro.


... se não estivessem perdidas, as crianças não se teriam libertado da madrasta má.


Por isso pergunto: será assim tão mau andarmos perdidos? Não será que é sinal de que estamos prestes a encontrar-nos?


Quando surgem os pequenos vilões da nossa vida (doenças, perdas, divórcios, conflitos, depressões, tristezas...) que nos levam a sentirmo-nos perdidos, será que não lhes devemos estar gratos?


Pois é quando sentimos o desespero de andarmos perdidos que vamos buscar todos os nossos recursos para irmos ao encontro de quem verdadeiramente somos.


Pessoas felizes não andam em busca de autoconhecimento. Pessoas que sofrem sim!


Se me perguntares se é melhor ser feliz e não saber quem sou ou sofrer e ter a possibilidade de me descobrir, eu respondo: obrigada, Universo, pelos meus sofrimentos! Hoje percebo para que me serviram.


Tal como Hansel e Gretel, só as crianças perdidas encontram os grandes tesouros, pois são as que vão em busca de si mesmas.


E quando nos buscamos, por mais florestas sombrias que encontremos no caminho, o fim da linha é sempre um imenso tesouro e a transformação da nossa realidade material.


Hansel e Gretel viveram felizes para sempre? Isso não te sei dizer. A única coisa que sei é que ainda vivem no meu coração como verdadeiros heróis. Afinal, mataram a bruxa.



Viaja comigo nas histórias!

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*Irmãos Grimm, Contos da Infância e do Lar, vol I, ed. Temas e Debates, trad. Teresa Aica Bairos

Ilustração de Kay Nielsen

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